Mamacita, vamos falar de dinheiro, pele e marketing.
Porque se há coisa que mexe connosco é aquela dúvida: “Será que o meu creme de 12€ é uma porcaria ao lado do sérum de 120€?”

Respira. A verdade é bem mais interessante do que “caro é bom, barato é mau”.
E no meio de tanto “medical grade”, “dermocosmético”, “clínico”, “profissional”, é muito fácil sentirmo-nos burras… quando não devíamos.

Neste artigo vamos pôr tudo em pratos limpos, em língua de gente:

  • o que é que a lei realmente exige aos produtos
  • o que quer dizer “medical grade”, “dermocosmético” e afins
  • quando vale MESMO a pena investir mais
  • e quando um creme do supermercado chega lindamente

No fim, quero que consigas olhar para qualquer rótulo e pensar:
“Eu sei perfeitamente o que estás a tentar vender, meu querido.”

Nota importante: neste artigo falo de produtos cosméticos na realidade da União Europeia. É conteúdo informativo e não substitui, em caso nenhum, a avaliação de um dermatologista, sobretudo quando há acne moderada a grave, rosácea ou outros problemas de pele persistentes.

Antes de mais: o que é um cosmético?

Na União Europeia, quase tudo o que pões na pele entra na categoria de “produto cosmético”: cremes, séruns, óleos, protetor solar, champô, gel de banho, maquilhagem, etc.

A lei europeia (Regulamento (CE) 1223/2009) diz que um cosmético é um produto aplicado no corpo para limpar, perfumar, modificar o aspeto, proteger, manter em bom estado ou corrigir odores. Não é um medicamento e não pode dizer que “cura” ou “trata doenças de pele”.

E aqui está a primeira bomba:

Um creme de farmácia, um de supermercado e um “medical grade” vendido numa clínica, se forem cosméticos, têm todos de obedecer às MESMAS regras base de segurança.

Ou seja:

  • todos têm de ter avaliação de segurança
  • todos têm de seguir listas de ingredientes permitidos e concentrações máximas
  • todos têm de ter fabricante / “responsável” identificado
  • nenhum pode legalmente prometer tratar doenças

A diferença não está na lei de base. Está noutros sítios.

O que querem dizer estes rótulos todos?

“Medical grade”, “clínico”, “profissional”

A parte menos sexy… mas mais libertadora:

Não existe definição legal específica para “medical grade” em cosméticos.
Zero. Niente. É sobretudo um termo de posicionamento e marketing, não uma categoria regulada.

Ou seja:

  • qualquer marca pode escrever “medical grade”, “clínico”, “profissional” no rótulo
  • isso, por si só, não significa que o produto é mais seguro ou mais eficaz
  • se o produto for cosmético, está debaixo das mesmas regras que os outros

Claro que há marcas muito sérias, com estudos e fórmulas ótimas, a usar esse tipo de linguagem. Mas o termo em si não garante nada.

O que pode realmente ser “médico”?

  • medicamentos tópicos (por exemplo, tretinoína sob prescrição)
  • produtos que entram na categoria de medicamento ou dispositivo médico

Tudo o resto… é beleza com bata branca por cima.

Dermocosmética / produtos de farmácia

“Dermocosmético” também não é uma categoria legal. É um conceito de marketing que se posiciona a meio caminho entre cosmético e dermatologia.

Regra geral, quando falamos de marcas de farmácia:

  • • são formuladas com foco em peles sensíveis / com problemas
    • costumam fazer testes clínicos / de tolerância
    • são muitas vezes recomendadas por dermatologistas e farmacêuticos
    • têm marketing mais “científico” e menos “glitter & unicórnios”

Mas continuam a ser… cosméticos. Não são medicamentos.

Cremes de supermercado / “mass market”

Depois temos o chamado “mass market”:

  • supermercados
  • drogarias
  • perfumarias acessíveis

A grande diferença aqui é:

  • escala de produção gigante
  • preços normalmente mais baixos
  • grande variedade de linhas e formatos

E atenção: baixo preço não significa, automaticamente, má qualidade.
Muitas grandes marcas de supermercado têm equipas de I&D fortes e fórmulas muito decentes. Às vezes estão a vender-te uma tecnologia semelhante à da “concorrência de farmácia”, apenas noutra embalagem e com outro posicionamento de preço.

Se a lei base é a mesma, onde é que estão as diferenças reais?

Aqui é que começa a parte que interessa.
Vamos pegar nos pontos que realmente mudam de produto para produto.

Fórmula e concentração de ingredientes

É aqui que vive a eficácia.
Não é no nome bonito, nem no frasco.

Diferenças possíveis:

  • concentração de ativos (por exemplo, percentagens de niacinamida, ácidos, retinoides)
  • combinação inteligente de ingredientes (por exemplo, ativos fortes + calmantes)
  • tipo de veículo (gel, creme, loção, sérum) que ajuda o ativo a funcionar melhor

Resultado:

  • alguns produtos de farmácia/“clínicos” têm fórmulas mais estudadas para problemas concretos (acne, rosácea, hipersensibilidade)
  • outros de supermercado são pensados para “agradar a toda a gente” e focam-se mais em textura e perfume

Mas também acontece o contrário: há cremes de supermercado super bem formulados… e produtos caríssimos com fórmulas pobrezinhas.

Testes e estudos

Muitas marcas de dermocosmética fazem:

  • estudos clínicos (mesmo que pequenos)
  • testes em peles sensíveis / com patologias
  • estudos de tolerância a longo prazo

Isto não é obrigatório por lei em todos os cosméticos, por isso é normal não veres o mesmo nível de detalhe num creme genérico de supermercado.

Mas “testado” também é um mundo de marketing:

  • “testado dermatologicamente” pode ser apenas um teste muito básico
  • números como “97% sentiu a pele mais macia” vêm muitas vezes de estudos de perceção em grupos pequenos

Vale a pena ler o asterisco, quando existe.

Canal de venda e aconselhamento

Aqui sentes logo a diferença:

Farmácia / clínica

  • tens farmacêutica, dermoconsultora ou médica a aconselhar
  • consegues falar de rosácea, acne, eczema, manchas
  • o ambiente transmite “mais seguro, mais técnico”

Supermercado

  • normalmente escolhes sozinho
  • o produto precisa de “vender-se” só à base de rótulo e publicidade

Há estudos que mostram que muitas consumidoras confiam mais em produtos comprados na farmácia e associam-nos a mais eficácia e segurança.

Não quer dizer que o frasco seja melhor só por estar na prateleira da farmácia. Mas o contexto influencia a nossa perceção.

Preço e posicionamento

Parte do preço paga:

  • ingredientes (sim)
  • investigação (sim)
  • embalagem e marketing (muito)
  • canal (margem da farmácia, clínica, perfumaria, etc.)

Por isso é que tens:

  • produtos muito caros com fórmulas incríveis
  • produtos muito caros com fórmulas medianas
  • produtos baratos muito básicos
  • produtos baratos surpreendentemente bons

Moral da história: não dá para adivinhar qualidade só pelo preço.

Quando é que vale mesmo a pena investir num produto mais caro?

Há situações em que gastar mais faz mesmo sentido, porque estás a pagar especialização, estudo e formulação mais cuidada.
Mas, sempre que falamos de pele com problemas (acne, rosácea, dermatites, manchas mais sérias), estes produtos são um complemento ao plano do dermatologista, nunca um substituto.

Atenção: estamos sempre a falar de cosméticos a complementar o plano de cuidados, não de tratamentos médicos. Se tens acne moderada ou grave, rosácea, eczema ou outro problema de pele mais sério, o dermatologista é sempre a primeira paragem. Os cremes ajudam, mas não substituem o médico.

Momentos em que pode justificar:

  1. Pele muito sensível ou reativa
    Quando tudo te arde, coça ou fica vermelho, linhas pensadas para pele sensível podem ajudar bastante. Ainda assim, se a reação for frequente ou intensa, o ideal é seres vista por um dermatologista.
  2. Acne moderada, rosácea, melasma
    Nestes casos, a primeira linha de ação deve ser sempre o dermatologista. Alguns produtos de farmácia ou linhas mais técnicas podem ser bons aliados dentro do plano que o médico definir, mas nunca o substituem.
  3. Pós-procedimentos estéticos
    Depois de laser, peelings médios/fortes ou outros tratamentos, vale muito a pena seguir à risca o que o médico recomenda, porque a pele está mais vulnerável e qualquer erro pesa mais.
  4. Quando já sabes que aquela fórmula, específica, resulta MESMO em ti
    Se já testaste um produto, viste diferença concreta e ele se encaixa no teu orçamento, investir nele passa a ser mais um “investimento pensado” do que um impulso. Ainda assim, se tens uma doença de pele diagnosticada, é sempre boa ideia alinhar tudo com o teu médico.

E quando é que um creme de supermercado chega perfeitamente?

Mais vezes do que pensamos.

Situações em que podes viver lindamente com produtos acessíveis:

1. Pele sem grandes problemas, só queres hidratar e manter
2. Limpeza diária (gel/óleo de limpeza suave)
3. Hidratante básico, sem ativos “pesados”
4. Óleo corporal, creme de mãos, gel de banho, etc.

Quando queres testar um tipo de textura ou conceito antes de investir num produto caro

A única coisa que eu não pouparia demasiado é no protetor solar:

  • tem de ter boa sensorialidade para realmente o aplicares todos os dias
  • idealmente com boa proteção UVB + UVA e, se possível, bons testes de fotoproteção

Mas mesmo nos protetores tens opções excelentes e acessíveis em farmácias e supermercados.

Como escolher um produto sem cair no engodo do marketing

Quero que fiques com uma mini checklist mental para cada vez que fores ver um rótulo.

Começa por aqui

1. O que é que a tua pele precisa MESMO neste momento?
Menos ruído, mais foco:
• queres hidratar?
• queres acalmar vermelhidão?
• queres atuar em manchas?
• queres controlar brilho/acne?

2. Que tipo de pele tens?
• oleosa / mista
• seca / muito seca
• sensível / reativa

3. Quanto é que estás disposta a gastar de forma sustentável?
Não adianta um sérum de 120€ que só compras uma vez na vida e depois não consegues manter a rotina.

O que ver no rótulo

  • Tipo de produto: sérum, hidratante, tratamento localizado, etc.
  • Ingrediente(s) estrela(s): niacinamida, retinol, vitamina C, ácido salicílico, ceramidas, etc.
  • Presença de perfume se tens pele sensível (pode ser relevante)
  • Indicações claras: “pele sensível”, “acneica”, “seca”, etc.

Mais importante do que “medical grade” ou “clínico” é perceber:

  • que problema é que isto quer ajudar
  • se faz sentido PARA TI
  • se o resto da tua rotina não está a sabotar o resultado

7 erros comuns que te fazem desperdiçar dinheiro em cremes

1. Comprar só porque uma influencer usou
E nem sequer tens o mesmo tipo de pele.

2. Acreditar que “se é caro, tem de ser melhor”
Não tem. E muitas vezes não é.

3. Desprezar completamente produtos acessíveis
Há verdadeiras pérolas no supermercado.

4. Não usar protetor solar e culpar o creme de noite por não resultar
Se não proteges a pele de dia, estás sempre a andar para trás.

5. Trocar de produto todas as semanas
A pele precisa de tempo. Pelo menos 4–8 semanas para veres o que é que um produto faz realmente.

6. Misturar demasiados ativos fortes ao mesmo tempo
Depois a pele rebenta e achas que “nada funciona”.

7. Não ir ao dermatologista quando o problema é mais sério
Acne moderada a grave, rosácea, dermatites repetidas… não se resolvem só com creme de prateleira. Cosméticos podem ajudar a aliviar e apoiar a pele, mas o diagnóstico e o tratamento têm mesmo de ser feitos por um médico.

Perguntas frequentes (FAQ)

“‘Medical grade’ é mais seguro?”
Não necessariamente. Se o produto for cosmético, está debaixo das mesmas regras de segurança que os outros. O termo “medical grade” não é garantida de nada por si só.

“Então é tudo igual?”
Também não. A eficácia depende da fórmula concreta, da concentração dos ativos, de como está feita e de como a usas. Há produtos muito bons em todas as gamas de preço.

“Farmácia é sempre melhor que supermercado?”
Não sempre. A farmácia tem mais foco em pele sensível e problemas específicos, e costuma oferecer mais aconselhamento. Mas também há produtos de farmácia frágeis em fórmula, e produtos de supermercado muito competentes.

“Posso usar creme de supermercado se tenho rosácea/acne?”
Podes, mas precisas de ter mais cuidado com perfumes, álcool e ingredientes potencialmente irritantes. E idealmente deverias ter a opinião de um dermatologista.

“Como sei se vale a pena pagar mais?”
Quando tens um problema de pele mais específico, quando precisas de fórmulas mais estudadas, ou quando já testaste e viste uma diferença real. Senão, começa simples e acessível.

Em resumo, mamacita

  • A grande diferença não está na prateleira onde o creme vive, mas na fórmula, na concentração de ativos e na forma como o usas.
  • “Medical grade”, “clínico”, “dermocosmético” são mais rótulos de marketing do que categorias legais rígidas.
  • Há produtos incríveis e péssimos em todas as gamas de preço.
  • O teu melhor filtro és tu: informação, senso crítico e conhecer a tua pele.
  • Quero que saias deste artigo menos refém do marketing e mais dona das tuas escolhas.

No fim de contas, mamacita, os cremes, os séruns e os frascos todos são só ferramentas. Boas, úteis, até prazerosas. Mas ferramentas. A parte mais importante não está na prateleira da farmácia, está na forma como te olhas ao espelho e na maneira como decides falar contigo quando vês uma ruga nova, uma mancha teimosa ou uma borbulha no pior dia.

A indústria vai sempre tentar convencer-te de que “falta qualquer coisa”: este ativo, este produto, esta rotina perfeita. A verdade é que tu já não estás incompleta. A beleza não começa quando compras o creme certo, começa quando decides cuidar de ti hoje, com o tempo e o dinheiro que tens. O resto são detalhes.

Se este artigo te ajudou a perceber melhor o que estás a comprar, já ganhámos. Cada euro que deixas de gastar por impulso e passas a investir com consciência é uma pequena revolução. Uma mulher informada vale mais do que qualquer campanha de marketing. E quando uma começa a ver mais claro, puxa sempre outra com ela.

Que escolhas cremes que te façam bem à pele, mas, acima de tudo, escolhas que te façam bem à cabeça e ao coração. 🩷 Alguma questão, estou aqui! :)

Outros Artigos