Desejo, consentimento e culpa. O que acontece quando a paz do casal te custa a paz contigo.

Nota da Mamacita: este é um espaço onde o julgamento fica à porta. A intenção não é justificar nem condenar. É criar um lugar de empatia e reflexão para mulheres que vivem dilemas íntimos, muitas vezes tão solitários quanto complexos.

Este texto não substitui cuidados de saúde, psicoterapia, terapia de casal ou sexologia. Se há dor persistente, ansiedade intensa, medo, pressão, chantagem, ou se sentes que não podes dizer “não” com segurança, procurar ajuda especializada é um acto de cuidado. Para saúde, existe o SNS 24. Para apoio em contexto de violência, existe a APAV. Em emergência, 112.

A “Sofia” (nome fictício) escreveu numa noite em que, nas palavras dela, tinha “feito de conta mais uma vez”.

A mensagem chegou ao Instagram do @mamacita_mag, curta e atravessada.

“Já perdi a conta às vezes em que finjo que está tudo bem na cama para não gerar drama. Finjo orgasmos, finjo vontade, finjo que está tudo ótimo. No fim, sinto me vazia e a culpada sou eu. Não sei como sair disto sem partir a relação ao meio.”

A Sofia não é a única. Há muitas mulheres a viver este teatro íntimo: dizer que está tudo bem quando o corpo está desligado, sorrir depois de uma relação sexual que deixou um nó no peito, fingir prazer para não ferir o ego de ninguém, consentir por cansaço, por medo de conflito, ou por receio de ser vista como “difícil”.

Ela escreveu porque já não aguentava a sensação de se trair a si própria, ao mesmo tempo que tentava proteger a relação.

E é aqui que esta conversa começa: o preço de fingir que está tudo bem na cama, para manter a paz fora dela.

Quando o “claro que sim” não é bem um sim

A Sofia tem 36 anos, vive com o companheiro há seis, têm uma filha pequena e uma vida que, vista de fora, parece estável. Rotina, trabalho, contas pagas, férias uma vez por ano, jantares com amigos, tudo dentro do que chamamos “normal”.

Na intimidade, nem tanto.

“No início era tudo intenso, espontâneo. Com o tempo, o cansaço entrou, a nossa filha nasceu, o trabalho aumentou. A frequência foi diminuindo, o desejo também. Mas a expectativa de que um casal saudável tem vida sexual ativa continuava lá.”

O desejo mexe com muita coisa. Stress, ansiedade, depressão, cansaço, problemas na relação, alterações hormonais, medicamentos, gravidez e o período depois de ter um bebé, tudo isto pode mexer com a libido. Não é “defeito”. É vida real.

O problema começa quando a resposta a isso é o silêncio. O “ok, vá” dito com culpa. O “amanhã compenso” que não chega. E, sobretudo, o sim dito para evitar consequências emocionais, não por vontade.

“O corpo diz não. A boca diz sim. E eu fico ali, presente fisicamente, mas ausente por dentro.”

Isto não é um julgamento do parceiro. Às vezes há pressão explícita. Outras vezes não há pressão direta, mas existe medo, crenças antigas, culpa, e a sensação de que dizer não é perigoso.

E quando a intimidade vira obrigação, o corpo aprende a desligar.

Quando o orgasmo é encenado para evitar o silêncio

Perguntei à Sofia quando é que começou a fingir orgasmos. Ela suspirou e disse “já nem sei”.

“Talvez logo no início. Havia aquela pressão de corresponder. Às vezes eu estava quase, mas não chegava lá. Ele perguntava ‘foi bom?’ e eu dizia que sim. Achei que era só de vez em quando. De repente, era hábito.”

O orgasmo fingido entra muitas vezes como atalho: para despachar, para não quebrar o momento, para evitar conversas desconfortáveis, para proteger o ego do outro.

Só que este atalho tem um custo.

Por fora, a mensagem é: “está tudo ótimo, continua assim”.
Por dentro, fica a sensação de vazio e de traição a ti própria.

E há uma consequência silenciosa que torna este tema tão delicado: quando finges, estás a ensinar o outro a repetir exatamente o que não te serve, porque ele acredita que está a fazer bem.

A verdade afasta se, um bocadinho de cada vez, até parecer impossível regressar a ela sem abalar a estrutura toda.

Consentimento verdadeiro é poder dizer não sem medo

Aqui vale a pena ser muito clara, para não haver espaço para leituras tortas.

Consentimento não é só ausência de resistência. Consentimento é um acordo livre. Deve ser dado sem pressão, pode ser retirado a qualquer momento e precisa de ser específico e informado.

Por isso, sim, existe uma diferença entre duas coisas.

Uma: desfasamento de desejo num casal, que é comum e pode trabalhar se com conversa, tempo, saúde e reconexão.

Outra: uma dinâmica em que o não não é seguro.

Se o teu não traz castigo emocional, mau humor prolongado, silêncio punitivo, pressão repetida, chantagem subtil, ameaças, insultos, medo, então o sim que vem a seguir deixa de ser livre. E sem liberdade, não há intimidade segura.

O teu corpo não é moeda de troca para paz doméstica, segurança emocional ou validação.

O peso de ser “a que estraga o clima”

Uma das maiores dificuldades em falar de sexo dentro de uma relação é o medo de partir alguma coisa.

Medo de magoar o outro.
Medo de o deixar inseguro.
Medo de criar distância.
Medo de parecer exigente, fria, complicada.

“Quando penso em dizer ‘assim não está a funcionar para mim’, vem logo uma voz interna a dizer ‘vais destruir a autoconfiança dele’. Então, engulo. Finjo. Depois choro sozinha.”

Este padrão é comum: preferir desrespeitar limites internos do que correr o risco de desestabilizar a relação.

Só que a relação desestabiliza na mesma. Só que em silêncio.

E quando a intimidade deixa de ser um lugar seguro, o corpo aprende. Aprende a desligar. Aprende a antecipar. Aprende a fugir. E isso pode transbordar para o resto: irritação, ressentimento, afastamento, menos carinho, menos paciência.

Não é “só sexo”

É fácil desvalorizar.

“Lá em casa está tudo bem, não vamos criar drama por causa de sexo.”
“Sexo não é tudo numa relação.”
“É só uma fase, passa.”

Às vezes passa. Outras vezes não. E empurrar o assunto durante anos pode transformar desejo em ressentimento.

A intimidade mexe com autoestima, com confiança, com segurança, com a tua disponibilidade para o afecto fora da cama. A Sofia descreveu isso de forma muito honesta.

“Comecei a irritar me com coisas pequenas. O copo na bancada, a toalha no sítio errado. Parecia que era isso, mas não era. Eu estava a acumular ressentimento por sentir que tinha de me disponibilizar quando não queria.”

Não é “só sexo”.
É o lugar onde se vê se estás em contacto contigo, ou se te abandonaste para manter a paz.

O que pode ajudar a sair deste ciclo

Não há um caminho perfeito, mas há passos que costumam ser mais seguros e mais justos.

Trocar culpa por clareza

Não és melhor companheira por te ignorares. Estás a fazer uma cedência com custos altos. Ver isto com lucidez tira te do lugar de culpa e põe te no lugar de responsabilidade por ti.

Dar nome ao que sentes, sem te insultares

Vazio, tristeza, raiva, desconexão, vergonha. Escrever ajuda. Terapia ajuda. Falar com alguém de confiança ajuda. Não para culpar, mas para ouvires a tua verdade.

Perceber o que gostarias que mudasse, de forma concreta

É a pressão? É o ritmo? É falta de preliminares? Falta de intimidade emocional antes da física? Dor? Secura? Se há dor, desconforto ou alterações físicas, falar com uma médica ou ginecologista pode ser importante, porque há causas comuns e abordagens possíveis.

Ensaiar a conversa fora da cama

Levar este assunto para o meio do ato quase nunca corre bem.

Podes começar assim.

“Há uma coisa importante sobre a nossa intimidade que preciso de conversar contigo. Tenho medo de te magoar, mas quero ser honesta porque isto é importante para mim e para nós.”

E depois falar de ti.

“Eu tenho dito que sim em dias em que não quero e isso está a afastar me.”
“Eu tenho fingido prazer por medo de te magoar e isso faz me sentir mal comigo.”

Dar espaço ao impacto e observar a resposta

Pode haver surpresa e mágoa. Faz parte.

Mas há uma diferença enorme entre alguém ficar magoado e, mesmo assim, querer entender e cuidar, e alguém reagir com raiva, humilhação, pressão ou castigo.

A resposta do outro diz te muito sobre o quão seguro é este lugar.

Reaprender o “sim” com calma

Às vezes o objetivo não é aumentar frequência. É aumentar verdade. Pode ser começar por reconstruir proximidade, carinho, conversa, descanso, toque sem expectativa. O corpo volta mais depressa quando não se sente pressionado.

Pedir ajuda quando isto já está muito enredado

Terapia individual ou de casal pode ser um apoio enorme para segurar esta conversa com menos medo e menos explosão.

Quando isto deixa de ser um tema de desejo e passa a ser um tema de segurança

Eu sei que isto pode ser difícil de ler, mas faz parte de cuidar.

Se te sentes com medo de dizer não, se o teu corpo entra em alerta, se há coerção, ameaça, chantagem, humilhação, insistência que não pára, ou qualquer forma de violência, tu mereces apoio e proteção.

Em Portugal, a APAV tem a Linha de Apoio à Vítima 116 006, gratuita, dias úteis das 8h às 23h.
Para violência doméstica, a CIG indica a linha 800 202 148 e o SMS 3060, gratuitos, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Se estiveres em perigo imediato, liga 112.

A conversa que a Sofia adiou anos e um dia aconteceu

A Sofia adiou esta conversa o máximo que conseguiu. Até que a paz aparente deixou de ser confortável.

“Um dia, depois de mais uma relação sexual em que eu tinha dito que sim sem querer e fingido um orgasmo no fim, fui tomar banho e desatei a chorar. Senti que tinha passado por cima de mim outra vez. E percebi que já não conseguia continuar assim.”

Sentou se na cama, com a voz a tremer, e disse ao companheiro que precisava de falar.

“Ele ficou em choque. Houve perguntas. Houve mágoa. Eu quase recuei, mas não recuei.”

E depois aconteceu a parte que muita gente não acredita que seja possível: ele ouviu.

“Disse que preferia mil vezes saber a verdade do que viver numa mentira confortável.”

Não virou filme romântico. Houve awkwardness, tentativas, dias bons e dias sem vontade. Mas ela descreveu o que, para ela, foi a mudança central:

“Hoje ainda me custa dizer que não, mas já consigo. Já não finjo orgasmos e há dias em que digo ‘não cheguei lá, mas gostei de estar contigo’. Isso deixou de significar fracasso.”

Se andas a fingir que está tudo bem na cama, isto é para ti

Se já consentiste por cansaço.
Se fingiste orgasmos para despachar ou proteger o ego de alguém.
Se saíste de momentos íntimos com vontade de chorar, a sentir que te traíste.

Não és fria. Não és ingrata. Não és “complicada”.

Estás a viver um conflito que muita gente vive e quase ninguém verbaliza: entre proteger o outro e não te perderes a ti.

O que pode acalmar o coração, aos poucos, é lembrar.

O teu corpo não está aqui para validar ninguém.
Tens direito a dizer não e a desejar que o teu sim seja inteiro.
Não és má companheira por quereres honestidade sexual.
A intimidade verdadeira não vive de atuação. Vive de verdade, mesmo quando a verdade é desconfortável.

Se quiseres, este espaço também é teu

Se estás presa neste ciclo e sentes que ninguém à tua volta percebe, não tens de atravessar isto sozinha.

Podes escrever me para as Margarita Confessions, de forma anónima AQUI. A única coisa garantida é que será recebida com respeito, cuidado e empatia.

Porque, no fim, o que cura não é ouvirmos “não faças disso um drama”.
É saber que, enquanto tentas deixar de fingir com os outros, tens pelo menos um espaço onde já não precisas de fingir contigo 🩷

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