Há uma frase que muitas mulheres dizem em voz baixa, quase sempre com culpa: “Eu nem tinha fome… mas comi.”

E a verdade é que, muitas vezes, aquilo que parece falta de controlo não é falta de controlo nenhuma. É exaustão, é ansiedade, é viver em piloto automático, é passar o dia inteiro a resolver tudo para toda a gente e a ignorar, pelo caminho, aquilo de que o corpo e a cabeça também precisam.

A comida, nestes momentos, raramente aparece só como comida, aparece como conforto, como pausa, como recompensa, como forma de lidar com um cansaço que já vem de longe e que, muitas vezes, nem sequer teve espaço para ser reconhecido.

Para perceber melhor o que está realmente por trás deste comportamento tão comum, falámos com a nutricionista Diana Dinis sobre fome emocional, cansaço mental e a forma como tantas mulheres acabam por usar a comida como resposta quando, no fundo, o que lhes falta é outra coisa.

Este não é um artigo sobre dietas.
É um artigo sobre vida real.

Quem é Diana Dinis

Diana Dinis é nutricionista e tem construído o seu trabalho longe da lógica da culpa, da restrição e das promessas irreais. A sua abordagem centra-se no comportamento, na consciência e na relação emocional que criamos com a comida ao longo da vida. Em vez de olhar apenas para o que está no prato, procura ajudar cada pessoa a perceber o que está por trás das suas escolhas alimentares, com mais contexto, mais autoconhecimento e menos julgamento.

É também nesse contexto que surge o Emagrece Sem Dietas, ou ESD, um programa em que esta consciência é trabalhada de forma prática, ajudando as clientes a identificar que tipo de fome está presente em cada momento e a lidar com ela de forma mais ajustada.

Quando não é fome, o que é?

Quando alguém diz “não tinha fome, mas comi”, muitas vezes o que está por trás não é fome física. Pode ser emoção, cansaço, stress, ansiedade, uma má distribuição alimentar ao longo do dia ou até simples hábito. Nesses momentos, a comida funciona como uma forma rápida de conforto, mesmo quando o corpo não precisa realmente de energia.

No ESD, uma das bases do trabalho passa precisamente por perceber que tipo de fome está presente. Porque muitas vezes, quando a pessoa pára e observa melhor o momento, percebe que aquilo de que precisa pode ser descansar, relaxar ou cuidar de si de outra forma, e não necessariamente comer.

Como distinguir fome física de fome emocional

Esta é uma das distinções mais importantes. A fome física costuma surgir de forma gradual. Não aparece de repente, não exige obrigatoriamente um alimento muito específico e, depois de comermos, tende a trazer saciedade e satisfação.

Já a fome emocional, que pode surgir por stress, cansaço ou ansiedade, costuma aparecer de forma mais repentina. Muitas vezes vem acompanhada de vontade de algo muito concreto, mais doce, mais gorduroso ou mais reconfortante e, mesmo depois de comer, é comum sentir que aquilo não resolveu realmente o que estava a faltar.

Aprender a reconhecer estes diferentes tipos de fome é, segundo a Diana Dinis, uma forma de deixar de viver em luta constante com a comida. É também uma das competências que o ESD procura desenvolver nas suas clientes.

Porque é que isto aparece tantas vezes ao fim do dia?

Ao longo do dia, muitas mulheres vivem em modo automático. Trabalham, resolvem, cuidam, respondem, organizam, antecipam. E, no meio de tudo isso, vão ignorando sinais do corpo, como a fome ou o cansaço. Quando finalmente chega o final do dia e há espaço para abrandar, o corpo e a mente tentam compensar.

É aí que a comida surge tantas vezes como uma forma rápida de alívio, conforto ou recompensa. Não tanto por falta de controlo, mas por cansaço acumulado e isto muda muito a forma como olhamos para o problema: talvez não seja falta de disciplina, talvez seja excesso de desgaste.

O que se passa no corpo e no cérebro?

Sim, o cansaço mental e a sobrecarga podem mesmo aumentar a vontade de comer. Segundo a explicação dada por Diana Dinis, quando estamos muito cansadas ou sob stress, o corpo produz mais cortisol, uma hormona associada ao stress, e esse aumento pode estimular o apetite, sobretudo por alimentos mais energéticos e reconfortantes.

Ao mesmo tempo, o cérebro procura formas rápidas de alívio e recompensa. Certos alimentos, especialmente os mais doces ou mais ricos em gordura, ativam circuitos de prazer e libertam dopamina, trazendo uma sensação momentânea de bem-estar. É por isso que, nestes momentos, a comida pode parecer uma resposta tão imediata e tão eficaz, mesmo quando a fome física não está realmente presente.

O ciclo da culpa raramente ajuda

Há outro ponto importante nesta conversa: a culpa. E aqui, Diana Dinis é clara. A culpa raramente ajuda a mudar comportamentos de forma duradoura. Muitas vezes, faz precisamente o contrário. Depois de comer, surge a sensação de falha, a ideia de que se perdeu o controlo, o julgamento interno e esse desconforto emocional acaba, por vezes, por alimentar um novo impulso para comer.

No ESD, a proposta passa por substituir julgamento por consciência. Em vez de entrar automaticamente no “não devia ter comido”, a ideia é tentar perceber o que estava por trás daquela vontade naquele momento. O objetivo não é premiar o descontrolo, mas compreender o comportamento para o conseguir transformar.

O que fazer quando percebemos: “Isto não é fome”

Na prática, a recomendação não é proibir, nem entrar em autocrítica, nem transformar aquele momento numa batalha. O primeiro passo é fazer uma pequena pausa. Uma pausa curta, mas suficiente para ganhar consciência e perceber o que está realmente por trás daquela vontade de comer.

Diana sugere perguntas simples, mas muito úteis:
“O que é que eu estou a precisar agora?”
“O que estou a querer mascarar com a comida?”

Muitas vezes, essa fome emocional está ligada a cansaço, stress ou necessidade de conforto. E nessas alturas há pequenas estratégias que podem ajudar a criar um intervalo entre o impulso e a resposta automática. Entre as sugestões deixadas por Diana estão: identificar os gatilhos que costumam despoletar a fome emocional, fazer uma pausa de cinco minutos, ler duas ou três páginas de um livro, respirar fundo, alongar o corpo, beber água ou chá, dar uma pequena caminhada, mudar de ambiente, falar com alguém, enviar uma mensagem, tomar um banho relaxante ou criar um pequeno momento de autocuidado.

O mais importante é perceber que estas estratégias não existem para evitar comida a todo o custo. Existem para explorar outras formas de cuidar de nós naquele momento. E, mesmo depois dessa pausa, se a decisão for comer, isso não significa falhar. Significa apenas escolher com mais consciência e com menos automatismo.

Hábitos simples que ajudam mesmo

Entre os hábitos que mais ajudam a quebrar este padrão, Diana destaca um muito simples: não passar muitas horas sem comer. Quando fazemos refeições equilibradas ao longo do dia, a energia mantém-se mais estável e diminuem as probabilidades de chegar ao final do dia com uma vontade intensa de comer e com pouca margem para regular esse impulso.

Outro ponto essencial é ter conhecimento e ferramentas para lidar com estes momentos. Muitas pessoas vivem estas situações sem perceber bem o que está a acontecer ou o que podem fazer de diferente. Quando ganham mais consciência sobre os diferentes tipos de fome e aprendem estratégias para lidar com a fome emocional, passam a sentir mais controlo e mais estabilidade. Também é importante aprender a reconhecer melhor os sinais do corpo, tanto de fome como de saciedade, para que as decisões à volta da comida se tornem cada vez mais conscientes.

É precisamente nestes pilares que assenta o trabalho do ESD: autoconhecimento, consciência e estratégias práticas para quebrar padrões automáticos e criar uma relação mais leve com a comida.

A mensagem que precisava de ser dita a mais mulheres

Há uma ideia que sobressai de toda esta conversa: muitas mulheres sentem que estão sempre a falhar com a comida quando, na verdade, estão apenas cansadas, sobrecarregadas e sem as ferramentas certas para lidar com esses momentos.

Segundo Diana, ninguém tem de enfrentar esta luta sozinha. No ESD existe acompanhamento diário precisamente para ajudar nestas fases mais difíceis, com orientação, apoio e estratégias práticas para perceber o que está a acontecer e como lidar com isso. Mais do que força de vontade, aquilo que faz a diferença é a consistência, a disciplina possível e a existência de um método claro.

Com apoio, é possível aprender, ajustar e continuar. E isso talvez seja uma das mensagens mais importantes de todas: muitas vezes, o problema não está na comida. Está no cansaço que nunca foi escutado, na ansiedade que nunca teve espaço e na ideia errada de que tudo isto se resolve apenas com mais controlo.

Porque é que este tema importa agora

Falamos muito daquilo que comemos, mas pouco daquilo que sentimos. Falamos de disciplina, mas quase nunca de exaustão. Falamos de força de vontade, mas ignoramos o peso mental que tantas mulheres carregam todos os dias.

Este artigo não procura soluções rápidas. Procura compreensão. Porque quando entendemos o motivo, o comportamento começa a mudar e, muitas vezes, o corpo não está a pedir comida. Está a pedir cuidado!

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