Há quem adore o Natal. E há quem chegue a dezembro e sinta logo o corpo a ficar em modo sobrevivência. Mais barulho, mais obrigações, mais “tens de”, mais expectativas. Se isto te descreve, respira: não há nada de errado contigo.
Não gostar do Natal pode ser só uma preferência. Pode ser uma fase. Pode ser luto. Pode ser cansaço. Pode ser a tua história familiar. Pode ser até o Inverno a fazer das suas. E sim, há evidência de que a solidão e a desconexão social são problemas reais e frequentes, com impacto na saúde.
Uma distinção que te tira culpa e pode mesmo salvar-te
Uma coisa é “não gosto do Natal”, outra coisa é esta altura do ano te empurrar para sofrimento sério: tristeza persistente, ansiedade intensa, isolamento extremo, ou pensamentos de autoagressão. Aí, não é para aguentar calada. É para pedir apoio, já. Mais abaixo tens contactos oficiais em Portugal.
Porque é que tantas pessoas não gostam do Natal
Porque o Natal vem com um guião e nem toda a gente quer, ou consegue, representar
Existe uma pressão social muito concreta para estar feliz, ser grata, conviver, “perdoar”, fazer a mesa bonita, dar prendas, aparecer. Quando a tua vida não está nesse lugar, ou quando simplesmente não te apetece, o contraste pode doer.
E às vezes o problema nem é o Natal. É o teatro obrigatório.
Porque a solidão fica mais evidente nesta altura
Solidão não é só “estar sozinho”. É sentir falta de ligação. E nesta época isso amplifica, porque tudo à volta fala de pertença e união.a.
A Organização Mundial da Saúde trata a solidão e o isolamento social como um tema sério de saúde pública, associando os dois a impactos na saúde física e mental e até a maior risco de morte prematura.
Na União Europeia, houve mesmo um inquérito à escala europeia, feito em Novembro e Dezembro de 2022, para medir solidão com escalas validadas.
Tradução para a vida real: não és “estranha” por te sentires assim. É um fenómeno estudado e reconhecido.
Porque o luto e as memórias fazem mais barulho em datas simbólicas
O Natal é um marcador emocional. Se houve perda, separação, uma relação familiar difícil, ou uma fase da vida que te custa, é normal que a saudade e o desconforto apareçam com mais força. Não é ingratidão. É memória.
Mesmo quando já passou “tempo suficiente”, as datas podem reacender essa memória. Isso não é fraqueza. É o cérebro a associar momentos.
E se a cadeira vazia pesa mais nesta semana, isso também não é falta de gratidão. É saudade.
Porque para algumas famílias, “reunir” não é sinónimo de segurança
Para muitas pessoas, o Natal é amor. Para muitas outras, é voltar ao sítio onde há críticas, comparações, comentários sobre corpo, filhos, dinheiro, vida. Ou apenas um ambiente onde não há espaço para respirar.
Se só de pensar nesse momento o teu corpo já fica em alerta, isso é informação. Não a ignores. Define limites.
Porque o Inverno mexe mesmo com o humor de algumas pessoas
Há um factor biológico que muita gente ignora: no Inverno há menos luz natural, os dias são mais curtos e isso pode influenciar energia, sono e humor.
Existe uma condição chamada perturbação afetiva sazonal, descrita como um tipo de depressão com padrão sazonal, frequentemente mais evidente no Inverno.
Isto não significa que “não gostar do Natal” seja isso. Significa apenas que, para algumas pessoas, esta altura coincide com um terreno mais frágil.
Isto não é para te diagnosticar. É para normalizar: às vezes “não gosto do Natal” é o teu corpo a pedir menos estímulo e mais cuidado.
Como passar o Natal sem te traíres
Um Natal à tua medida é um Natal válido
O teu Natal pode ser pequeno e tranquilo. Pode ser só com uma pessoa. Pode ser contigo. Pode ser um filme e uma boa sopa. Pode ser um passeio. Pode ser dormir cedo. Não tens de encaixar no modelo de ninguém. O valor não está no tamanho da celebração, está no respeito por ti.
Define limites curtos, simples e repetíveis
Limites não precisam de grandes discursos. Precisam de clareza.
Podes usar frases simple assim, sem justificações infinitas:
. Este ano vou passar só um bocadinho e vou embora cedo.
. Obrigada pelo convite, mas este Natal vou fazer diferente.
. Preciso de um Natal mais tranquilo, vou proteger-me.
Atenção: limites não são debates ou negociações. São decisões e cuidado.
Se tiveres de ir, vai com um plano. Se não quiseres ir, não vás. Se quiseres ir pouco, vai pouco.
Protege te das comparações nas redes
Se o feed te faz sentir “menos” reduz a exposição nesta semana. Silenciar contas durante uns dias não é antipatia, é higiene mental.
Faz um plano para o antes e para o depois
Muitas vezes o pior não é o dia. É o vazio à volta dele. Planeia duas ou três coisas pequenas que te segurem:
• Um passeio durante o dia
• Uma banho quente e cedo
• Uma chamada a alguém de confiança
• Uma refeição que te sabe bem
• Um filme que te dá conforto
• Uma tarefa simples em casa, para te dar sensação de controlo
Algo pequeno, mas teu.
Quando não gostar do Natal já não é só uma opinião e convém pedir ajuda
Se sentes tristeza persistente, ansiedade intensa, isolamento total, alterações fortes no sono e apetite, ou pensamentos de auto lesão, não esperes que “passe com o Ano Novo”.
Se estiveres em risco imediato, liga 112.
Linha SNS 24, aconselhamento psicológico
Liga 808 24 24 24 e escolhe a opção 4.
1411, Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
Linha integrada no SNS 24.
SOS Voz Amiga, apoio emocional por telefone
Atendimento diário das 15h30 às 00h30.
Contactos: 213 544 545, 912 802 669, 963 524 660, 930 712 500.
Conversa Amiga
Contactos 808 237 327 ou 210 027 159, todos os dias, 15h às 22h.
A frase que gostava que guardasses, mamacita
Não gostar do Natal não te torna fria. Torna-te honesta.
E honestidade, quando vem com autocuidado e limites, é maturidade.
