A “Marta” (nome fictício) escreveu-me numa noite de semana qualquer, daquelas em que a casa está arrumada, o filho a dormir, o parceiro no sofá e, ainda assim, algo não encaixa.
“Tenho tudo o que sempre quis. Uma casa bonita, um marido que não é mau, um filho saudável, um trabalho estável. E, mesmo assim, sinto-me miserável. Só que tenho vergonha de admitir isto em voz alta.”
Disse que se sentia uma ingrata. Que tinha medo de ser vista como “maluca”, “egoísta” ou “dramatica”. Que só começou a escrever porque, ao ler outras histórias no Instagram da Mamacita, percebeu que talvez não fosse a única a ter pensamentos que nunca diria num jantar de amigos.
A Marta não queria que alguém lhe dissesse o que fazer. Queria, primeiro, validar o que sentia: aquele desconforto estranho de ter a vida “certa”, mas não se sentir bem por dentro.
A vida perfeita no papel
A Marta tem 38 anos. Vive com o marido há mais de dez. Têm um filho em idade pré-escolar, um cão resgatado de um abrigo, duas prestações importantes: casa e carro. Nada de novo no roteiro.
“Se alguém visse a minha vida de fora, diria que está tudo impecável. Não há discussões constantes, ele não me trata mal, não me falta nada ao nível material. Toda a gente me diz que tenho sorte. Eu própria passei anos a repetir isso a mim mesma. Era como se tivesse um guião na cabeça: ‘É isto que tu querias, agora aguenta e sê feliz’.”
A certa altura, as pequenas falhas começaram a pesar mais.
“Não me lembro da última vez que senti desejo por ele. As nossas conversas giram quase sempre à volta de logística. Não sinto curiosidade pela vida dele. E olho para mim e penso: se isto é a vida que eu escolhi, porque é que me sinto tão vazia?”
Não havia drama óbvio. Não havia gritos, insultos, traições declaradas, mas havia um som muito mais difícil de escutar: o silêncio interno.
O problema de não haver “um grande problema”
Quando uma relação termina por traição, violência, abuso ou falta total de respeito, o mundo em redor tende a entender melhor. É óbvio que aquela mulher saiu dali porque aquilo era claramente mau.
Quando, pelo contrário, estamos a falar de uma relação “ok”, em que “não falta nada”, o dilema é outro. Como é que se explica aos outros, e a nós próprias, que algo nos está a matar por dentro se, em teoria, ninguém fez nada de muito errado?
“Eu digo muitas vezes que o meu marido não é mau. Ele está presente, ajuda com o nosso filho, não bebe em excesso, não me trai, não me desrespeita. Mas também não me vê. Ou, pelo menos, eu não me sinto vista. E é esta parte que sinto que ninguém leva a sério.”
Este tipo de situação é muito frequente. O relacionamento que, em termos de checklist, cumpre todos os pontos. Ele é “boa pessoa”, não há grandes escândalos, há estabilidade. E, no entanto, falta qualquer coisa que é difícil nomear. Intimidade emocional, partilha genuína, desejo, cumplicidade, curiosidade, vontade de crescer juntos.
Quando tudo isto vai desaparecendo aos poucos, fica uma sensação de estar a viver metade de uma vida. Não é uma catástrofe evidente. É uma erosão lenta.
A culpa de não estar feliz onde “devíamos” estar felizes
Perguntei à Marta o que era mais difícil de admitir: “O mais difícil é esta frase: não estou feliz. Logo a seguir vem outra, ainda mais dura: se eu sair, vou deitar uma vida inteira fora. E ainda outra: quem sou eu para me queixar?”
O peso da culpa cai de vários lados.
A culpa de pensar em separar-se de alguém que não é “um monstro”.
A culpa de “estragar a família” por não aguentar um desconforto que ninguém vê.
A culpa de imaginar a vida sem a pessoa que esteve lá em tantos momentos.
A culpa de pensar “e se eu sair e perceber depois que o problema era só meu?”.
Quando vivemos numa cultura que ensina as mulheres, desde cedo, a aguentar, a ser gratas, a “não deitar uma relação fora por coisas pequenas”, é muito fácil duvidar do próprio mal-estar. E convencer-nos de que o problema é sensibilidade a mais, egoísmo ou imaturidade.
O que quase ninguém diz é que também é uma forma de violência silenciosa obrigar-nos a viver uma vida inteira em piloto automático, só para não parecermos ingratas.
“Ele não é mau, mas eu também não sou um objeto decorativo na nossa casa.”
A frase é da Marta, mas podia ser de muitas mulheres.
Porquê é que é tão difícil falar disto
Falar sobre infelicidade numa relação aparentemente estável toca em muitos medos.
Medo de quebra da imagem, medo de comentários como “ninguém é feliz sempre”, “estás a ver demasiado cinema”, “há coisas piores”, “pensa nas crianças”, “hoje em dia as pessoas desistem à mínima coisa”.
Medo de descobrir que, se formos honestas, talvez tenhamos de tomar decisões dolorosas.
Por isso, muitas mulheres fazem o que a Marta fez durante anos. Empurram o assunto com a barriga, convencem-se de que é “fase”, que foi o cansaço, a maternidade, o stress do trabalho, e que um dia há de passar.
Às vezes é mesmo uma fase, outras vezes não é. E é aqui que entra a parte mais difícil: perceber quando estamos a atravessar uma tempestade e quando já vivemos permanentemente debaixo de chuva.
Quando a vida certa não chega
Não existe uma fórmula universal que diga “esta relação acabou” ou “esta relação ainda se pode reconstruir”, mas há sinais que merecem ser olhados com seriedade, em vez de varridos para debaixo do tapete.
Quando não te lembras da última vez que sentiste entusiasmo por estar com essa pessoa.
Quando já não falas sobre o que realmente sentes, porque achas que “não vale a pena”.
Quando sentes que te anulas, dia após dia, para manter a paz.
Quando quase nunca te sentes genuinamente feliz ao imaginar o futuro com essa pessoa, só aliviada por não ter de mudar tudo.
Nada disto significa que a relação está condenada, mas significa que tu não estás bem e isso importa. Não és um detalhe na tua própria história. És a personagem principal.
O que pode ajudar quando te sentes assim
Cada história é uma história, mas há alguns passos que podem ajudar quem está nesta encruzilhada.
Reconhecer, primeiro contigo, que não estás bem
Antes de falar com alguém, antes de tomar qualquer decisão, é importante seres brutalmente honesta contigo própria. Não para te culpabilizar, mas para parares de minimizar o que sentes com frases como “isto é só cansaço” ou “toda a gente se sente assim”.
Dar nome ao que te falta
É intimidade? Desejo? Conversa? Respeito pelos teus sonhos? Tempo em conjunto de qualidade? Sentir-te admirada? Quando consegues perceber o que te falta, ficas também com mais clareza sobre se é algo que pode ser trabalhado ou se, no teu caso, já é um vazio estrutural.
Falar com alguém que não te julgue
Pode ser uma terapeuta, uma amiga muito segura, alguém que não te vá atirar frases feitas à cara. Falar em voz alta tira peso, organiza ideias e lembra-te de que não estás louca nem ingrata por te questionares.
Avaliar se a relação ainda é um lugar onde é possível conversar de forma honesta
Em muitas histórias, o parceiro também anda perdido, também sente que algo não está bem, mas não sabe como abrir o assunto. Noutras, há uma recusa total em olhar para dentro. O tipo de resposta que encontras do outro lado diz muito sobre o potencial de reconstrução.
Aceitar que não existe escolha isenta de dor
Manter tudo igual dói. Mudar dói. Ficar dói. Sair dói. O que pode ajudar não é procurar uma opção sem dor, é perceber qual é a dor que tu consegues carregar sem te perderes de ti.
Lembrar-te de que a tua felicidade não é um capricho
O bem-estar emocional não é um extra de luxo reservado a poucas. Estar bem não é egoísmo. É a base para te relacionares melhor com toda a gente, incluindo filhos, amigos, trabalho e até contigo mesma.
A conversa que a Marta teve primeiro consigo e só depois com ele
A Marta passou meses a repetir por dentro que estava tudo bem. Até que chegou ao ponto em que chorava com facilidade sem saber explicar porquê, estava irritada com tudo e todos e sentia que o corpo inteiro estava sempre tenso.
“Comecei a ir à terapia porque tinha ataques de pânico. Achava que ia falar só do trabalho, do cansaço, da maternidade. Saí das primeiras sessões a perceber que grande parte da minha angústia vinha desta sensação de estar presa numa vida que já não me servia.”
Não saiu de casa de um dia para o outro, não fez malas dramáticas, não anunciou separações impulsivas. Primeiro, teve uma conversa profunda consigo. Assumiu, em voz alta, que não estava feliz. Que já não sentia amor como parceira, apenas como alguém da família. E que tinha medo de destrui-lo a ele, ao filho, a tudo.
Quando finalmente falou com o marido, não levou um veredito pronto, mas levou verdade.
“Disse-lhe que não queria viver em modo colega de casa para sempre. Que gostava dele, mas não estava feliz. Que precisava de perceber se ainda tínhamos caminho juntos ou se estávamos só a manter uma fachada.”
A reação dele não foi perfeita. Houve negação, houve defesa, houve também vulnerabilidade. Começaram terapia de casal. No caso deles, a conclusão, meses depois, foi que a relação como marido e mulher tinha chegado ao fim.
Foi fácil? Não. Partiram-se corações, houve dúvidas, houve noites sem dormir, mas a Marta descreve hoje a sensação de forma muito clara.
“Doeu muito, mas doeu de forma limpa. A dor de continuar ali, a sentir-me a morrer por dentro todos os dias, era dura, confusa, cheia de culpa. Hoje ainda dói, mas é uma dor que reconheço como parte de um processo, não como uma sentença.”
Nem todas as histórias vão acabar numa separação. Algumas vão resultar em relações reconstruídas com mais verdade. Outras vão manter-se, mas com acordos diferentes. O importante é que a tua voz não desapareça só porque, no papel, tens tudo.
Se tens a vida “certa” e, ainda assim, não estás bem
Se leste isto e sentiste um aperto no peito, se te apanhas muitas vezes a pensar “eu devia era estar calada e agradecer”, se tens medo até de admitir que não estás feliz, isto não significa que tenhas de sair a correr da tua relação.
Significa, isso sim, que mereces olhar para o que sentes com respeito. Sem te chamares ingrata. Sem te chamares louca. Sem usares a palavra “drama” para encolher o tamanho da tua dor.
Podes, ao mesmo tempo, ser grata pelo que tens e reconhecer que não estás bem.
Podes amar partes da tua vida e questionar outras.
Podes querer proteger os teus filhos e, ao mesmo tempo, perceber que crescer a ver uma mãe apagada também tem impacto.
Podes não saber ainda o que fazer, mas saber que não queres continuar a fingir que está tudo certo.
Se quiseres, este espaço também é teu
Se estás numa relação que, no papel, parece perfeita, mas por dentro não te faz bem, não tens de carregar isto sozinha.
Podes escrever-me para as Margarita Confessions. A tua história será totalmente anónima e fica prometido é que será recebida com respeito, cuidado e sem julgamento.
As Margarita Confessions existem, também, para estas zonas cinzentas da vida. Para os “tenho tudo, mas não estou bem”, os “não sei o que fazer”, os “tenho vergonha de admitir o que penso”. Porque, muitas vezes, o primeiro passo não é mudar a vida toda. É perceber que, enquanto não encontras o caminho, não estás sozinha dentro dela. 🩷
