Há uma série de coisas que fazemos ao cabelo sem pensar muito. Um calor a mais. Uma máscara mal usada. Uma franja decidida por impulso. Uma cor que parecia boa ideia até deixar de ser. E depois há aquela sensação irritante de estares a cuidar dele e, mesmo assim, ele continuar sem brilho, com frizz, sem forma ou com pontas que já não convencem ninguém.

Mas a verdade é que esta conversa não é só sobre erros.

É também sobre hábitos que fazem diferença, expectativas pouco realistas, loiros que exigem mais do que muita gente imagina, tendências que resultam muito bem em algumas mulheres e muito mal noutras, e aquela pergunta eterna: porque é que o cabelo do salão nunca fica igual em casa?

Para falar sobre tudo isso, sentei-me com Hugo Offerman, um dos melhores profissionais de cabelo que conheço, no Ferragial, um salão que olha para o cabelo de forma atenta, sem fórmulas iguais para toda a gente e sem a pressa de fazer só o que fica bem numa fotografia.

E houve uma coisa que ficou clara logo de início: muita daquilo que estraga o cabelo podia ser evitado, mas também muita daquilo que o melhora começa em gestos mais simples do que pensamos.

O que mais chega ao salão para corrigir

Perguntei ao Hugo qual é o problema mais frequente que lhe chega às mãos. A resposta foi imediata: correções de cor.

E quando lhe perguntei qual é o erro que mais trabalho dá a corrigir, aquele que muitas vezes podia ser evitado com uma decisão mais sensata, respondeu exactamente o mesmo: correções de cor.

Não é difícil perceber porquê. A cor continua a ser uma das áreas em que mais facilmente se mistura impulso, expectativa e pouca noção do ponto de partida. E, no cabelo, isso costuma pagar-se caro.

Por isso, quando olha para um cabelo pela primeira vez, há uma coisa que avalia logo: a saúde do cabelo.

Antes da vontade da cliente, antes da tendência, antes da referência guardada no telemóvel. Primeiro, o estado real do fio. Porque nem tudo o que se quer fazer é uma boa ideia para o cabelo que se tem naquele momento.

A expectativa que mais obriga a pôr os pés na terra

Há um pedido que, segundo ele, obriga quase sempre a gerir expectativas logo de início: clientes com o cabelo pintado de escuro a quererem ficar loiras.

É o tipo de transformação que, vista de fora, parece mais simples do que realmente é. Mas o cabelo tem histórico, tem limites e tem memória. E passar por cima disso raramente acaba bem.

No fundo, é aqui que se nota a diferença entre fazer uma mudança bonita e forçar uma mudança que o cabelo ainda não consegue aguentar.

O erro do dia a dia que mais estraga o cabelo

Se tivesse de escolher um só, Hugo não hesita: o uso de ferramentas a temperaturas demasiado elevadas e sem protetor térmico.

Parece básico, eu sei, mas continua a ser um dos erros mais repetidos e mais destrutivos.

O pior é que este tipo de dano não chega com dramatismo. Vai-se acumulando. O cabelo vai perdendo brilho, elasticidade e resistência, até começar a partir, a ficar baço ou simplesmente a deixar de ter bom aspeto, mesmo quando está arranjado.

Frizz: menos insistência, melhores resultados

Quando falámos de frizz, houve uma resposta dele que achei especialmente útil porque desmonta um erro muito comum.

O que mais ajuda, diz, é usar produtos que controlem o frizz e não pentear o cabelo em seco quando ele já está com frizz.

Ou seja, o impulso de mexer mais nem sempre ajuda. Às vezes, ajuda precisamente o contrário.

Há cabelos que pioram muito quando se insiste na escova em seco, sobretudo quando já estão mais secos, com eletricidade ou com volume fora de controlo e muitas mulheres fazem isso sem perceber que estão a aumentar exactamente aquilo que querem eliminar.

O que está a fazer a cor desaparecer mais depressa

Nos cabelos pintados, os culpados são bastante claros: sol, mar, piscina e falta de produtos específicos para cabelos pintados.

Nada disto é novidade, mas continua a ser subestimado. Sobretudo porque há quem pinte o cabelo e depois continue a tratá-lo como se ele não precisasse de cuidados diferentes.

Precisa.

E nota-se muito depressa. No brilho, na intensidade, na forma como a cor perde força e naquele ar bonito de cabelo acabado de fazer que desaparece demasiado cedo.

O que um loiro bonito exige mesmo

Quando o assunto é cabelo loiro, Hugo é muito claro: a primeira regra é ir a um bom salão para não sair de lá já com o cabelo danificado.

Parece duro, mas é uma verdade útil.

Depois disso, o cuidado em casa deixa de ser opcional. Produtos de qualidade, shampoo e condicionador adequados, e máscara pelo menos uma vez por semana, mas bem feita. Com tempo. Sem pressa. Como ele diz, não vale pôr e tirar logo, porque assim “estás a deitar dinheiro para o lixo”.

E isto é mais importante do que parece. Há muita gente a usar bons produtos de forma apressada e depois a concluir que não resultam. Quando, muitas vezes, o problema não é o produto. É a forma como está a ser usado.

O que as mulheres estão a pedir mais neste momento

Há uma tendência que, segundo ele, continua a aparecer muito em salão: curtain fringes.

Percebe-se. É aquele detalhe que consegue mudar bastante o rosto, dar leveza ao cabelo e criar um ar mais fresco sem parecer uma transformação radical.

Mas quando perguntei qual é a tendência que mais vezes corre mal quando as pessoas tentam copiar sem adaptar, a resposta foi simples: franjas.

E faz todo o sentido. Porque uma franja nunca é só uma franja. Depende do rosto, da textura do cabelo, da forma como cresce, do styling e da disposição real que a pessoa tem para a manter.

Aquilo que numa fotografia parece fácil, na vida real muitas vezes exige mais do que parecia.

Se pudesse mudar uma única coisa

Esta foi das respostas de que mais gostei.

Se pudesse mudar um único hábito no dia a dia das mulheres, Hugo diz que gostava que elas perdessem mais tempo com o cabelo.

O cabelo é a nossa moldura. E a nossa imagem é a primeira impressão que deixamos às outras pessoas”, diz.

E não, isto não tem de ser lido como vaidade fútil. Tem mais a ver com atenção, cuidado e presença. Com deixarmos de tratar o cabelo como uma coisa secundária quando ele influencia tanto a forma como nos vemos e como nos mostramos.

Quando lhe perguntei qual é a frase que gostava que toda a gente tivesse presente ao pensar no próprio cabelo, respondeu assim: “O cabelo é muito importante para mim, portanto vou cuidar melhor dele.

Simples, mas certeiro.

O lado mais inesperado de um salão

Claro que uma conversa destas não ia ficar só pelos danos, pelos erros e pelas rotinas.

Perguntei-lhe também por histórias que lhe tenham ficado na memória. E houve uma que hoje já conta a rir, embora no momento tenha sido tudo menos divertida.

Tinha acabado de chegar a Barcelona, era jovem, estava cheio de confiança, a trabalhar num salão super cool, e na primeira semana atendeu uma cliente que começou a chorar a meio do corte. O patrão a olhar. Ele convencido de que ia ser despedido. No fim, afinal, a cliente adorou o resultado e ainda lhe pediu desculpa.

Também já lhe fizeram pedidos inesperados na cadeira de cabeleireiro. O mais improvável? Um pedido de casamento.

E talvez isso diga mais sobre esta profissão do que parece. O cabeleireiro nunca mexe só em cabelo. Mexe também em confiança, identidade, fases boas, fases difíceis e momentos que ficam.

No fim, o que vale mesmo a pena reter?

Talvez isto: o cabelo raramente se estraga de repente.

Estraga-se aos poucos. No calor em excesso. Na falta de protetor térmico. Na cor mal pensada. Na franja copiada sem adaptação. Na máscara que não fica tempo suficiente. Na rotina feita à pressa.

Mas também melhora aos poucos.

Quando se começa a olhar para ele com mais atenção. Quando se escolhe melhor. Quando se insiste menos em fórmulas que não resultam. Quando se percebe que, muitas vezes, não é preciso fazer mais. É preciso fazer melhor.

Ah, e claro: que podem confiar o vosso cabelo ao Hugo, palavra da vossa Mamacita!

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