Há histórias que começam com uma frase pequena, dita em frente a um espelho, num fim de tarde qualquer, entre roupa espalhada em cima da cama e uma mãe a pensar no jantar.
A primeira vez, ela não percebeu ou talvez tenha percebido qualquer coisa, mas ainda não lhe tenha dado nome.
“Ela estava a experimentar uns calções. Olhou para o espelho, fez uma cara estranha e disse que as pernas dela eram horríveis.”
A mãe contou-me que, nesse dia, reagiu como muitas mães reagiriam. Disse-lhe que não era verdade, que ela estava linda, que não dissesse disparates. Tentou trocar a frase má por uma frase boa, como se fosse possível corrigir à pressa aquilo que tinha acabado de ouvir e a vida continuou.
O jantar foi para a mesa. A roupa foi dobrada. A mochila foi preparada. A frase ficou ali, algures, sem fazer barulho, mas depois vieram outras.
Um dia, a filha pediu-lhe para apagar uma fotografia porque “estava péssima”, noutro, disse que não podia usar uma saia porque “ficava enorme”, mais tarde, recusou uma ida à praia sem uma t-shirt larga por cima do fato de banho... e houve uma manhã em que, antes de sair de casa, se olhou ao espelho e murmurou: “Estou uma desgraça.”
Foi aí que a mãe parou. Não porque a frase fosse nova, pelo contrário, foi precisamente porque não era.
“Quando ela disse aquilo, senti uma coisa estranha. Não parecia uma frase dela. Parecia uma frase minha na boca dela.”
Só então começou a fazer sentido. A filha não estava apenas a ter um dia mau com o corpo. Não estava só a atravessar aquela insegurança que tantas crianças e adolescentes podem sentir à medida que crescem, mudam e se comparam. Estava a usar uma língua que a mãe conhecia demasiado bem. A língua das fotografias apagadas, das roupas que “não favorecem”, das barrigas escondidas, das pernas criticadas, das sobremesas acompanhadas por culpa, das idas à praia adiadas porque “não estou em condições”, das frases ditas a rir, como se uma mulher pudesse ser cruel consigo própria desde que o fizesse em tom de brincadeira.
“Estou horrível.”
“Apaga essa.”
“Com estas pernas, nem pensar.”
“Estou enorme.”
“Já não posso usar isto.”
“Tenho de fechar a boca.”
Durante muito tempo, a mãe achou que estava a protegê-la porque nunca dizia estas coisas sobre o corpo da filha. Nunca lhe chamou gorda, nunca lhe disse que estava feia, nunca a mandou emagrecer, nunca comentou as pernas, a barriga, os braços ou a forma como a roupa lhe assentava. Pelo contrário, tinha cuidado, muito cuidado.
Mas, com o tempo, começou a perceber que talvez uma filha não aprenda apenas com aquilo que a mãe lhe diz directamente, também aprende com aquilo que vê a mãe fazer a si própria.
E, nesta casa, havia uma coisa que a mãe fazia sem reparar: tratava o próprio corpo como se estivesse sempre em falta.
A percepção não veio toda de uma vez
A percepção não veio com uma frase única, nem com um momento cinematográfico. Veio por repetição, veio quando a filha começou a usar as mesmas expressões, veio quando a mãe percebeu que já tinha dito aquelas frases em frente ao mesmo espelho, veio quando deu por si a querer corrigir na filha uma dureza que ainda praticava consigo.
E talvez tenha sido isso que mais lhe custou admitir: não tinha ensinado a filha a odiar o corpo dela, mas tinha-lhe mostrado, sem querer, como uma mulher aprende a olhar para o próprio corpo como se estivesse sempre em dívida.
“Eu nunca lhe disse para emagrecer, nunca comentei o corpo dela, sempre achei que estava a protegê-la, mas naquele dia percebi que talvez não a estivesse a proteger quando me destruía à frente dela.”
Esta é a parte que dói. Porque nenhuma mãe quer ser o primeiro espelho cruel da filha. Nenhuma mãe quer perceber que a frase que mais temia que o mundo dissesse à sua filha talvez tenha chegado primeiro em casa, repetida pela mãe sobre si própria.
E isto importa. Não porque uma frase dita num dia mau arruíne uma criança ou porque as mães tenham de viver vigiadas, como se cada palavra fosse uma ameaça. As mães já carregam culpas suficientes. Mas porque as palavras repetidas criam ambiente e o ambiente em que uma criança cresce também ensina.
Isto não é sobre culpar mães
É importante dizer isto com todas as letras: esta história não é uma acusação às mães.
Uma mãe pode amar profundamente uma filha e, ainda assim, ter uma relação difícil com o próprio corpo; pode ter crescido a ouvir comentários sobre peso, barriga, pernas ou comida; pode ter sido elogiada quando emagreceu e ignorada quando estava apenas bem; pode ter aprendido, muito cedo, que ser mulher era viver em vigilância, pode ter herdado frases que nunca escolheu.
“Eu percebi que não tinha inventado aquela voz, também a tinha recebido de algum lado.”
Talvez seja mesmo isso. Muitas mulheres não começam a criticar-se porque um dia decidiram ser injustas consigo próprias, começam porque foram crescendo num mundo onde o corpo feminino parece estar sempre em avaliação.
A casa, a escola, as revistas, a televisão, as redes sociais, os comentários da família, as dietas disfarçadas de conversa, os elogios ao emagrecimento, as piadas sobre engordar, os filtros, as fotografias retocadas... Tudo isso vai ensinando uma língua. E muitas mães chegam à maternidade já fluentes nessa língua. A diferença é que, um dia, ouvem a filha falar igual.
O que sabemos sobre imagem corporal nas crianças e adolescentes
A imagem corporal não é apenas “achar-se bonita” ou “achar-se feia”, é como uma combinação de pensamentos e sentimentos que uma pessoa tem em relação ao próprio corpo. Pode variar entre experiências mais positivas e experiências mais negativas, e pode influenciar o bem-estar, a autoestima e a relação com a alimentação, o exercício e a aparência.
E os pais podem influenciar a imagem corporal dos filhos de forma directa, através de comentários ou críticas sobre peso e aparência, e de forma indirecta, através dos próprios comportamentos alimentares e atitudes em relação ao seu corpo e aparência.
Nada disto significa que uma mãe cause sozinha as inseguranças de uma filha. Seria injusto e simplista. A imagem corporal é influenciada por muitos factores: família, amigos, escola, redes sociais, cultura, puberdade, personalidade, experiências de vida e mensagens constantes sobre aparência.
Mas significa que a linguagem usada em casa pode ajudar ou pode pesar e, nesta história, foi isso que a mãe percebeu.
A casa também ensina o espelho
Uma criança pode não fazer tudo o que uma mãe diz, mas vê muito do que uma mãe faz.
Vê quando a mãe se esconde nas fotografias, vê quando a mãe aceita ou rejeita um elogio, vê quando a mãe se trata como um problema antes de sair de casa, vê quando a mãe deixa de ir à praia porque diz que não está “em condições”, vê quando a mãe transforma uma sobremesa numa declaração de culpa... vê quando a mãe só se permite existir se estiver mais magra, mais nova, mais arranjada, mais perto de uma versão que talvez nem exista.
E depois, um dia, está em frente ao espelho e repete. Não por mal, por aprendizagem.
“Naquela noite, depois de ela se deitar, fui à casa de banho e chorei. Não chorei só por ela. Chorei por mim também. Porque percebi que eu falava comigo como se fosse uma pessoa de quem eu não gostava.”
Esta frase ficou-me.
Porque talvez seja mesmo isto. Muitas mulheres falam consigo como jamais falariam com uma amiga, como nunca falariam com uma filha, como nunca falariam com uma criança, mas falam assim todos os dias com o próprio corpo e acham normal.
Não é normal. É comum, que é outra coisa.
E há uma diferença enorme entre uma coisa ser comum e uma coisa ser aceitável.
A conversa que veio depois
No dia seguinte, esta mãe não fez uma conversa perfeita, não preparou um discurso sobre autoestima, não tentou resolver em dez minutos uma coisa que nela demorou décadas a instalar-se.
Sentou-se com a filha e disse-lhe uma coisa simples.
“Ontem ouvi-te falar mal das tuas pernas e fiquei triste, porque percebi que eu também falo muitas vezes assim comigo. Estou a tentar mudar isso, não quero que aprendas comigo essa parte.”
A filha olhou para ela com aquela honestidade directa das crianças.: “Mas tu dizes isso muitas vezes.”
E pronto. Às vezes, a verdade não precisa de grandes metáforas. Vem numa frase seca, entre cereais, cabelos por pentear e mochilas à porta.
“Ela não disse aquilo para me magoar. Disse porque era verdade.”
A partir daí, esta mãe não começou a amar milagrosamente o próprio corpo. Isso também seria mentira e há poucas coisas mais cansativas do que a obrigação de nos amarmos todos os dias.
Há dias em que uma mulher não se sente bonita, há dias em que não gosta de uma fotografia... há dias em que a roupa aperta, o cabelo não ajuda, a pele está cansada e a cabeça está pior.
O objectivo não é transformar todas as mães em criaturas iluminadas, reconciliadas com cada centímetro de si.
O objectivo talvez seja mais simples e mais difícil: Parar de nos insultar.
Parar de fazer do corpo uma piada cruel. Parar de anunciar, em voz alta, cada defeito que encontramos em nós.
Parar de ensinar, mesmo sem querer, que o primeiro gesto de uma mulher diante do espelho deve ser procurar onde está a falha.
As pequenas frases que começou a mudar
“Comecei por mudar frases pequenas. Quando não gostava de uma fotografia, tentava dizer: não gosto desta fotografia. Não dizia: estou horrível. Parece a mesma coisa, mas não é.”
Não é mesmo. Não gostar de uma fotografia é uma preferência. Dizer “estou horrível” é uma sentença. Uma coisa fala de uma imagem. A outra fala de uma pessoa inteira.
Também começou a mudar a forma como falava da roupa.
Em vez de dizer “isto fica-me mal porque estou enorme”, passou a dizer “esta peça não me está confortável”.
Em vez de dizer “não posso comer isto”, passou a dizer “hoje apetece-me” ou “hoje não me apetece”.
Em vez de falar do exercício como castigo pelo que tinha comido, tentou falar dele como cuidado, energia, saúde, força ou simples tempo para si.
Em vez de se apagar das fotografias, tentou aparecer mais vezes. Não sempre, não em todas, não com uma confiança inventada, mas o suficiente para a filha não crescer com álbuns cheios de toda a gente menos da mãe.
Uma criança não precisa de aprender que a comida é prémio ou castigo, não precisa de crescer a achar que uma fotografia “má” apaga a pessoa inteira, não precisa de sentir que existir no verão exige autorização estética.
Precisa, isso sim, de ver adultos a tratarem o corpo com algum respeito. Mesmo nos dias em que não o adoram.
O dia da saia
Semanas depois, a filha voltou a hesitar antes de sair com uma saia.
Ficou parada à frente do espelho, puxou a peça para baixo e fez aquela cara que muitas mulheres conhecem demasiado cedo. A mãe viu o momento chegar.
Desta vez não entrou em pânico. Não despejou elogios. Não tentou apagar a insegurança à força. Só perguntou: “Estás confortável?”
A filha encolheu os ombros. “Mais ou menos.”
E a mãe disse: “Queres trocar ou queres ir assim?”
Ela parou, pensou e foi.
Não houve música de filme, não houve cura imediata, a filha não saiu de casa a amar as pernas para sempre. A mãe também não ficou livre da sua própria voz antiga.
Mas a filha saiu na mesma e, às vezes, isto já é uma vitória enorme.
Sair apesar da insegurança, ir à praia apesar da barriga, aparecer na fotografia apesar do cansaço, vestir a saia apesar da dúvida, comer a sobremesa sem fazer uma declaração pública de culpa, ocupar espaço sem pedir perdão.
Talvez seja isto que podemos tentar interromper
Talvez uma filha não precise de uma mãe que se adore todos os dias. Talvez precise de uma mãe que, mesmo sem se adorar sempre, se recuse a tratar-se como inimiga. Uma mãe que consiga dizer:
“hoje não me sinto no meu melhor” sem acrescentar “estou horrível”.
“Esta roupa não me está confortável” sem concluir “o meu corpo é um problema”.
“Estou cansada” sem transformar o cansaço em fealdade.
“Quero cuidar de mim” sem fazer desse cuidado uma punição.
Porque, no fundo, esta história nunca foi só sobre pernas. Era sobre voz. A voz que uma mulher herdou, a voz que repetiu sem reparar, a voz que a filha começou a usar e a decisão, imperfeita mas poderosa, de tentar interromper a corrente antes que ela chegasse mais longe.
“Eu sei que ela vai ouvir coisas duras no mundo. Vai comparar-se, vai duvidar, vai ter dias em que não gosta de si. Eu não consigo protegê-la de tudo, mas gostava que, quando ela chegasse a casa, não encontrasse em mim mais uma voz contra ela.”
Talvez seja isto. Talvez a casa não consiga salvar uma filha de todos os espelhos, mas pode não ser mais um.
E talvez uma das maiores heranças que uma mãe pode deixar não seja ensinar a filha a sentir-se bonita todos os dias. Talvez seja ensiná-la a não ser cruel consigo própria nos dias em que não se sente.
Nota Mamacita:
Este texto fala de uma experiência pessoal e de uma realidade que muitas famílias podem reconhecer: a forma como os adultos falam do próprio corpo pode influenciar a forma como crianças e adolescentes aprendem a olhar para si. Isto não significa que uma frase isolada cause, por si só, um problema de imagem corporal. Significa apenas que vale a pena criar em casa uma linguagem mais cuidadosa, menos centrada na aparência e mais ligada ao respeito, à saúde e ao bem-estar.
Se uma criança ou adolescente mostra sofrimento persistente com o corpo, medo intenso de engordar, alterações marcadas na alimentação, isolamento, exercício compulsivo, perda ou aumento rápido de peso, ou comentários frequentes de autodepreciação, o mais seguro é procurar orientação junto de um profissional de saúde. É importante procurar apoio médico quando há preocupação com imagem corporal, autoestima, alimentação ou comportamentos relacionados com exercício.
